25 Nov, 2017 Última atualização em 1:26 PM, Nov 13, 2017

“Cidade ideal não existe pronta. É algo construído a cada dia. Inovar é começar.”

Publicado em Cidades Sustentáveis
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Por GORETTI SENA

O curitibano Jaime Lerner é, sem dúvida, o maior especialista e planejador urbano que o Brasil já conheceu. Reconhecido mundialmente pelo seu trabalho, em especial, por ter participado do desenvolvimento do Plano Diretor de Curitiba que resultou no processo de transformação física, econômica e cultural da cidade.

Durante sua primeira gestão como prefeito daquela Cidade, no período 1971 a 1975, Lerner consolidou as transformações do município e implantou o Sistema Integrado de Transporte Coletivo, reconhecido internacionalmente pela sua eficiência, qualidade e baixo custo.

 

Nas duas gestões seguintes, além das ações de vanguarda no planejamento urbano, Lerner intensificou um amplo programa que resultou em avanços na área social, destacando Curitiba como uma das cidades com um dos maiores índices de qualidade de vida entre as principais capitais do mundo.

Nesta entrevista especial ao JORNAL BELVEDERE, Jaime Lerner fala das suas ideias e aponta quais os caminhos e atitudes que uma cidade precisa seguir para se tornar uma “CIDADE SUSTENTÁVEL”.

JaimeLerner4Jaime Lerner é formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná foi responsável pela criação e estruturação do Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), e mais tarde foi prefeito de Curitiba em três mandatos: nos períodos de 1971/75, de 1979/83 e de 1989/92.Eleito governador do Estado do Paraná em 1994 e reeleito em 1998, Lerner promoveu a maior transformação econômica e social da história do Estado. Apoiado em uma política de atração de investimentos produtivos, o Paraná se consolidou como um novo polo industrial do País. A exemplo da experiência bem sucedida de Curitiba, o governador Jaime Lerner preocupou-se em resolver problemas de transporte, uso do solo, educação, saúde, saneamento, lazer e industrialização como um todo.
Essa preocupação, intensa principalmente na área social, de educação e de atenção à criança, renderam ao Governo do Paraná o prêmio Criança e Paz da Unicef, para os programas “Da Rua para a Escola”, “Protegendo a Vida” e “Universidade do Professor”.
Foi eleito presidente da União Internacional de Arquitetos (UIA) em julho de 2002. Tem em seu currículo prêmios importantíssimos como Prêmio Máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente, conferido pela United Nations Environment Programe (UNEP), New York; Prêmio Anual do Instituto Internacional de Conservação de Energia (IIEC), em Washington; na Expo 90 – Osaka, Japão – ganhou dois prêmios conferidos pelo alto grau dos programas de conservação ambiental; em 1991 recebeu o Prêmio Habitat “Scroll of Honor”; depois o Prêmio “Tree of Learning Award” da União Internacional para Conservação da Natureza; Prêmio Príncipe Claus - Fundação Príncipe Claus para Cultura e Desenvolvimento (Holanda)  e o Prêmio The 2001 World Technology Award for Transportation - The National Museu of Science and Industry – Londres, entre outros.
Além do reconhecimento, Jaime Lerner é condecorado com vários títulos como o de Doctor Honoris Causa da Universidade Politécnica de Cracóvia (Polônia) e da Technical University of Nova Scotia (Canadá). Recebeu a comenda “Colar de Ouro” do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) é ainda Membro Honorário do Royal Institute of Architects of Canadá; do American Institute of Architects e do Royal Institute of British Architects.

JORNAL BELVEDERE - Quais são os princípios que norteiam uma ocupação urbana sustentável? As grandes metrópoles, com seus grandes problemas de falta de moradia e mobilidade urbana, para citar dois grandes desafios, ainda têm solução? É possível “reinventar” uma cidade?

JAIME LERNER - Acredito firmemente que qualquer cidade, independente de seu tamanho e dos recursos disponíveis, pode ser positivamente transformada em dois, três anos. Mas para isso é preciso começar, querer fazer acontecer, a partir de uma visão estratégica, da construção de soluções compartilhadas e de projetos específicos capazes de demonstrar o futuro que se deseja. Não podemos nos deixar paralisar por nossos medos e por nossa própria burocracia.
Primeiramente, uma cidade precisa de uma estrutura de crescimento, de um desenho que organize o uso do solo, o sistema viário e o transporte público. Sem esse desenho, a cidade não consegue estabelecer suas prioridades, definir onde adensar, onde proteger, onde colocar as infraestruturas de maior capacidade.
Uma cidade bem planejada é a que entende que essa integração é necessária e que, além de atentar para as questões fundamentais de educação, saúde, atenção à criança e ao idoso, age nos aspectos de mobilidade, sustentabilidade e identidade/coexistência, as quais são essenciais à qualidade de vida urbana.
A mobilidade é um dos principais desafios à qualidade de vida das nossas cidades. Há muito que se pode fazer para melhorá-la. Primeiramente, usar da forma mais inteligente possível os recursos que cada cidade tem disponível – “smart” metro, “smart” trem”, “smart” bus, “smart” car, “smart” bike. Acredito que o transporte em superfície tem muito a contribuir. Com as características adequadas – vias dedicadas, embarque pré-pago e em nível, prioridade nos cruzamentos, frequê­ncia elevada -, é possível “metronizar” o ônibus, que é um sistema flexível e que pode ser implantado por uma fração dos custos de um metrô, por exemplo. O sistema de transporte público tem que ser o mais eficiente possível, trazendo dignidade, conforto e segurança ao usuário. Ainda, para os deslocamentos de curta distância que ligam os principais nós da rede de transporte público e o destino final do usuário podemos utilizar veículos pequenos, leves, não-proprietários, movidos a energia limpa, a exemplo do sistema Velib de Paris. O carro não pode ser o principal modo de viagem para os nossos deslocamentos de rotina – afinal, é um veículo de “passeio”. Vejo o carro como o cigarro do futuro em nossas cidades.

Como conciliar o desejo de se viver na cidade que cresce sem parar e a necessidade de preservação dos recursos naturais? O que fazer para não frear o progresso?
A postura que coloca em campos antagônicos crescimento econômico e proteção ambiental está – ou deveria estar – superada. Hoje sabemos que um processo de desenvolvimento verdadeiro tem que abraçar as variáveis econômicas, sociais e ambientais. Temos um compromisso com as gerações futuras. As cidades são o lar de mais de 50% da população do planeta e respondem por cerca de 75% da emissão dos gases relacionados ao efeito estufa. Pense na quantidade de empregos e oportunidades de inovação que pode ser gerada se investirmos seriamente na melhoria da qualidade de vida do meio urbano. Podemos dotar nossas cidades de uma estrutura de crescimento coerente, que evite que a mancha urbana se espalhe sem controle sobre áreas de proteção; as infraestruturas (transporte, energia, lógica, comunicações...) são mais eficientes quando servem espaços com densidades adequadas; podemos também recriar o que já existe, valorizando nosso patrimônio histórico, dotando-o de um novo conteúdo que responde às necessidades da cidade contemporânea. Imagine o que podemos “economizar” adotando soluções de macrodrenagem que dialogam com o curso dos rios e suas várzeas, criando espaços de encontro para a população, e assim por diante. A preservação dos recursos naturais faz sentido, principalmente para as cidades.

Como adequar os ideais dos ambientalistas e dos empresários do segmento imobiliário, por exemplo?
A cidade tem que construir uma visão de futuro, um sonho compartilhado que mobilize os esforços para além uma geração. Essa visão tem que ser concebida dentro de um processo colaborativo. Quando a cidade sabe para onde vai, a conciliação dos interesses se torna mais simples.
Para se realizar essa visão de futuro é necessário montar equações de corresponsabilidade que agreguem os esforços do poder público, da iniciativa privada e da sociedade civil. A iniciativa privada tem como contribuir imensamente na construção dessa visão de futuro, somando os traços de inovação e empreendedorismo que lhes devem ser característicos. O setor imobiliário, ao participar desse sonho compartilhado, tem grande capacidade de dar visibilidade ao que se deseja, posto que edifica um percentual importante da paisagem urbana. Usar essa pujança a favor do desenho de cidade que se busca faria uma diferença substantiva.

Nesta equação delicada, entre interesses diversos, que tantas vezes nos parecem incompatíveis, como o cidadão comum pode contribuir para alcançar a tão sonhada qualidade de vida? Pequenos gestos, cada um fazendo um pouco... Que posturas o senhor sugere?
Cada um de nós pode fazer muito. A separação do lixo reciclável do orgânico, por exemplo, é algo que funciona muito bem dentro de cada moradia/escritório/comércio. O Programa Lixo que não é Lixo, que implantamos em Curitiba no final da década de 1980, tem como base de seu sucesso a participação do cidadão, e a contrapartida correspondente do poder público em realizar a coleta seletiva. Outra questão é privilegiar o transporte público para os deslocamentos de rotina – de casa para o trabalho, para a escola, etc. -, e reservar os veículos de passeio para os momentos de lazer.

Que metrópoles (no mundo) o senhor aponta hoje como exemplos viáveis de desenvolvimento harmônico? Por quê?
Não gosto de fixar modelos. Existem muitas cidades mundo afora que se esforçam para melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos. Prefiro ressaltar as qualidades que acredito são importantes para uma boa cidade: prezar pela diversidade, investir no transporte coletivo, qualificar seus espaços públicos, zelar pelo seu patrimônio ambiental, pela história e pela memória. Boas cidades são espaços para gente. Já dizia Vinicius de Morais que a vida é a arte do encontro; a cidade é o cenário desse encontro.
A cidade tem que ser o espaço do encontro da diversidade. Diversidade de renda, de usos, de etnias, de tipologias edilícias. É no convívio com as diferenças que construímos o dom da coexistência que torna as cidades mais humanas e, por consequência, mais seguras. Não podemos ter nas nossas cidades guetos nem de ricos nem de pobres. Precisamos dos “olhos” do comércio, dos serviços, da moradia, animando as nossas ruas. Sou a favor dos empreendimentos que se abrem para a cidade - que não se fecham para ela -, que estão conectados a sua estrutura de crescimento, a sua visão de futuro, e que usam das ferramentas da diversidade, de densidades adequadas, de valorização do transporte coletivo e de modos leves de deslocamento, e de um bom desenho para construir qualidade de vida.

Como o senhor resume o seu conceito de “acupuntura urbana”?
A “acupuntura urbana” é uma intervenção pontual, precisa, em um espaço estratégico da cidade, que tem o potencial de trazer novas energias e revitalizar, por um efeito em cascata, toda uma região. É algo que pode ser feito no curto prazo, ajudando a estabelecer o efeito de demonstração que auxilia na consolidação de processos de planejamento de mais longo prazo. Pode ser uma injeção de autoestima para a cidade, a cura de uma “ferida” em sua paisagem – intervenções que transformam, por exemplo, um espaço degradado em um novo “cartão postal” para a cidade. A Universidade Livre do Meio Ambiente, ou a Ópera de Arame, em Curitiba, seguem essa lógica – pedreiras abandonadas, que prejudicavam a qualidade de vida da região – se transformaram em espaços de disseminação de cultura, conhecimento, desenvolvimento do turismo, encontro e alegria.

O senhor foi o mentor de uma revolução urbanística que projetou Curitiba internacionalmente como exemplo de “Capital Verde”. Nessa experiência, tão particular, qual foi o seu maior desafio? E o seu grande motivo de orgulho?
A administração de uma cidade é um grande desafio, mas pode também ser muito gratificante. Talvez o meu maior desafio – e satisfação – tenha sido quebrar paradigmas vigentes. Buscar a simplicidade, ter certo compromisso com a imperfeição – no sentido que o processo de planejamento de uma cidade é algo que permite correções, sempre, contanto que se esteja atento e disposto a ouvir o retorno dado pela população. Acredito que inovar é começar, é fazer acontecer, e tenho muita alegria com o fato de que em Curitiba muitas coisas boas aconteceram.
Quais são suas metas (trabalho, realização de projetos pessoais) para os próximos anos?
Digo que quem sonha cria todo dia. Quem cria nasce todo dia. Espero sonhar e criar muito ainda!

Tartaruga Vita

Qual seria, em sua opinião, a cidade ideal para se viver? Ou melhor, dizendo, o ideal de cidade? Podemos sonhar, sem problemas...
Há alguns anos escrevi um livro que procurava explicar conceitos importantes da cidade para crianças, que trazia várias personagens acompanhadas de pequenas histórias. Uma delas é a tartaruga “Vita”. A metáfora da tartaruga faz uma analogia simpática com o que acredito seja o ideal de uma cidade: uma estrutura integrada de vida, trabalho, mobilidade – junto. Imagine o sofrimento da tartaruga se dividíssemos seu casco e espalhássemos os pedaços em diversos pontos. E é isso que frequentemente fazemos em nossas cidades. A separação das funções urbanas no território em compartimentos que obrigam as pessoas a grandes deslocamentos no dia-a-dia é irracional.
Finalmente, a “cidade ideal” não existe pronta, não é uma abstração que nasce da prancheta de um projetista. É algo construído a cada dia. Repito que inovar é começar. Na raiz de uma grande transformação está a pequena transformação. O essencial é fazer acontecer e depois ir aperfeiçoando a solução. Começar criando a partir de elementos simples, fáceis de serem implantados, e esses serão os embriões de sistemas mais complexos. Costumo dizer, tendo tido a experiência de gerir a minha cidade por três vezes, e o meu estado por duas, que se quiser criatividade, corte um zero do orçamento; se quer sustentabilidade, corte dois; solidariedade, assuma a sua identidade respeitando a diversidade.

 

Tartaruga “Vita”

A metáfora da tartaruga faz uma analogia simpática com o que acredito seja o ideal de uma cidade: uma estrutura integrada de vida, trabalho, mobilidade – junto. Imagine o sofrimento da tartaruga se dividíssemos seu casco e espalhássemos os pedaços em diversos pontos. E é isso que frequentemente fazemos em nossas cidades.

Última modificação em Quinta, 26 Setembro 2013 15:10
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