30 Apr, 2017 Última atualização em 2:22 PM, Apr 27, 2017

Desponta a verticalização e surgem as “Cidades Caminháveis”

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Entrevista / Sandra Sayão • arquiteta

A arquiteta Sandra Regina de Barros Sayão, ex-presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura - AsBEA Rio de Janeiro e sócia do escritório De Fournier & Associados Projetos de Urbanismo, uma das maiores empresas no setor da Arquitetura possui vasta experiência no mercado nacional e internacional.

SandraSayoDesde 1986, o arquiteto Henri Michel de Fournier e seus sócios Sandra Regina de Barros Sayão Ferreira e Françoise Sussane Passburg atuam em todos os segmentos do mercado mobiliário, inclusive projetos hoteleiros e turísticos.

Um grande exemplo disso é o deslumbrante Vila Galé Eco Resort, em Angra dos Reis, o primeiro resort de qualidade internacional situado na costa verde do Rio de Janeiro. A obra trouxe mudanças significativas para os setores econômicos, turísticos e sustentáveis da região.

Nesta entrevista exclusiva para o JORNAL BELVEDERE, a arquiteta Sandra Sayão reconhece que a “verticalização das construções é inevitável”, mas que surgirão as chamadas “Cidades Caminháveis” focadas “basicamente, no conforto, qualidade de vida e preceitos da sustentabilidade”.

 

JORNAL BELVEDERE - Por favor, apresente seu ponto de vista em relação à verticalização das metrópoles.
SANDRA SAYÃO - Quando lemos ou ouvimos notícias todo e qualquer numeral, que venha a expressar o posicionamento populacional do Brasil, temos como primeiro impacto a seguinte questão, que nos parece de imediato sem solução: a onde e de que forma, vamos acomodar tanta gente, com qualidade e sustentabilidade?  Não estamos apenas constatando um fato, e sim, aceitando um desafio, uma batalha em progressão.  
Segundo o IBGE, o Brasil possui a quinta maior população do mundo, que se aglomera principalmente na região Sudeste e em áreas urbanas. Sendo bem objetiva, a verticalização das construções é inevitável. Nos grandes bairros e cidades, não existe mais espaço, mas a população continua em crescente avanço. O expressivo número de empreendimentos verticalizados, focados para o nicho dos novos consumidores, tem como expressão de mercado, uma excelente oportunidade de implantar qualitativamente as construções com o conceito verde.
O Brasil vive o momento de inversão de entendimento sobre qualidade que foi praticada até o momento. O mercado imobiliário num formidável processo de transformação e requalificação dos bairros e cidades, na busca da qualidade de vida em construções sustentáveis, balizam hoje, seus conceitos e preceitos na preocupação ambiental, buscando converter o aquecimento progressivo do mercado imobiliário, em um resultado de legado sustentável para o ambiente e para o ocupante.  A horizontalidade nas grandes cidades esbarra na ausência de oferta de áreas. Este movimento está na contramão do processo de requalificação dos grandes centros urbanos, e não atende a demanda de mercado, para a real necessidade de ocupação.


Alguns lutam contra a verticalização, alegando que ela gera má qualidade urbanística. Mas eu pergunto: qual a proposta para resolver esta realidade de ocupação nos centros urbanos já consolidados?
Certamente, só terão como resposta, apenas a posição contrária ao fato concreto da necessidade de ocupação, mas não tem efetivamente, uma proposta que faculte um movimento diferente ao que são contrários. E sabemos, simplesmente, que não existe outra proposta diferente da verticalização.
O novo rumo do desenvolvimento imobiliário está focado na proposta de produtos complementares entre si. Estamos na busca do novo legado: estão surgindo as “CIDADES CAMINHÁVEIS”.

Com que critérios e/ou planejamento pode se dar as “Cidades Caminháveis”?   
Quando fazemos a leitura de qualidade urbana, estamos diretamente ligados a oferta de ocupação e produtos que focam, basicamente, no conforto, qualidade de vida e preceitos da sustentabilidade. Tais conceitos se refletem nos aspectos dos novos prédios, e na ocupação das novas cidades na busca principal pela eficiência energética.
A busca pelas alternativas energéticas, a racionalização do consumo da água, a busca pela eficácia a coleta seletiva do lixo, pelo sistema ideal de finalização perfeita de transporte destes resíduos, a um “eco ponto” mais próximo reduzindo os custos operacionais desta logística e consolidação das “Cidades Caminháveis” reduzindo a queima de energia fóssil listam os passos principais para um planejamento e/ou desenvolvimento sustentável.

Em sua opinião, ainda é possível (re)construir uma metrópole  sustentável para os mineiros?  O que seria, no seu ponto de vista, este ideal de cidade?
O ideal de cidade para qualquer cidadão, e no caso, para os mineiros, parte do princípio democrático, na busca dos entendimentos dos conflitos de território e assimetria política, e na busca da solução para precariedade do trabalho, moradia e entendimento da ocupação do solo, a necessidade de infraestrutura, mobilidade, segurança, saúde e escola.  
Tudo isso se resume no direito da vida urbana. A contemporaneidade é cheio de novas invenções e descobertas. A cidade que queremos é coletiva e integrada. As ruas, as praças, os edifícios novos e/ou históricos, tem que espelhar o comportamento de liberdade e igualdade. Estamos no momento, em que todos juntos constroem suas “Cidades Ideais”, com identidade própria e com auto-governaça.
Assim estamos consolidando o fundamento democrático de uma “Cidade Humanizada” modulada em projetos coletivos. Vivendo uma revolução urbana, carregada de novas expressões, que afastam o antigo comportamento segregador e classificatório que construiu a nossa história.

Belo Horizonte, bem como outro lugar, já consolidado tem a oportunidade de se reinventar com qualidade e sustentabilidade. Isso é possível?
Sim, com certeza.  

O que precisamos, no entanto, é entender a cidade. Como ela surgiu? Como ela se consolidou? E o que ela precisa remodelar?
Temos a obrigação de entender: a demanda do mercado, as necessidades que impulsionam o reinvento de ocupação urbana, a necessidade de pesquisa e descobrir a fórmula para a requalificação urbana, balizada no princípio de sustentabilidade e gestão urbanística. A leitura das necessidades de mobilidade, oferta de moradia e trabalho, cultura e lazer, fazem parte dos elementos fundamentais para o desenvolvimento das novas propostas de ocupação, como também, a necessidade de uma releitura legal das leis de uso do solo.
Nós estamos na era do entendimento compartilhado de ocupação. Temos que buscar a Cidade Caminhável, que prima pela mobilidade e eficiência dos transportes de massa. Belo Horizonte tem total potencial para isso. Reinventar a centralidade já consolidada de BH, recuperando sua estima ambiental, preservando sua história, requalificando sua mobilidade e abrindo a oportunidade para releitura de ocupação, reinventando seus vazios urbanos e/ou setores consolidados é um presente por direito a todos os mineiros.
Temos que buscar novos conceitos de ocupação, com usos mais integrados e complementares entre si. Precisamos agregar as novas propostas de ocupação em vazios urbanos, produtos que presenteiem legados para a cidade, tais como: parques, praças, museus entre outras mil outras possibilidades temáticas a serem aplicadas. Temos que romper com o comportamento teórico do contra ou do reativo ao novo, estamos no momento de discutir a reinvenção e uma releitura qualitativa e sustentável. Não é um movimento simples, é bem complexo, até porque todos são no momento os detentores da verdade.  
A moradia é um direito básico, mas a diferença se faz, na qualidade desta moradia, na qualidade do espaço urbano que esta moradia está inserida e que necessidades, de quem mora, são atendidas.  A infraestrutura é o principal motor da urbanização. A fluidez e integração entre produto e cidade consolidam a mobilidade sustentável de um bairro ou região. A educação e a oferta de serviços públicos e privados, a cultura e o lazer, qualificam este conceito contemporâneo de ocupação.
Agora é o momento de Belo Horizonte se permitir ser instrumento desta pesquisa e comportamento de reinvenção, a CIDADE está pedindo e o CIDADÃO está sedento desta remodelação e modernização.

Jornal Belvedere

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