30 Apr, 2017 Última atualização em 2:22 PM, Apr 27, 2017

“A cidade é uma coisa viva”

Publicado em Cidades Sustentáveis
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Entrevista / GUSTAVO PENNA • arquiteto

O arquiteto Gustavo Penna é considerado expoente nos anos 80 da arquitetura pós-moderna em Minas Gerais.

GustavoPennaFormou-se em 1973 pela Universidade Federal de Minas Gerais, onde frequentou as aulas de mestres como Humberto Serpa, Rafael Hardy e Cuno Maurício Lussy, e lecionou por três décadas. Em 1974, fundou o escritório de arquitetura que ocupa desde então o centenário casarão em estilo eclético que pertencia a seus avós, na Avenida Álvares Cabral, no centro de BH.  

 

Aliando excelência arquitetônica a boas práticas de gestão, Gustavo Penna atua em projetos de médio e grande porte e desenvolve parcerias com escritórios nacionais e estrangeiros, entre eles, o americano Richard Meier & Partners Architects vencedor do Pritzker Prize, e o alemão Gerkan, Marg und Partner (GMP). Os projetos da GPA&A podem ser vistos também nos principais sites internacionais de arquitetura, como Urbarama e Contemporist.

 

JORNAL BELVEDERE - Quais são os princípios que norteiam uma ocupação urbana sustentável? As grandes metrópoles, com seus grandes problemas de falta de moradia e mobilidade urbana, para citar dois grandes desafios, ainda têm solução? É possível “reinventar” uma cidade?

GUSTAVO PENNA - Cometemos um erro histórico: projetar a cidade a partir da superfície, só pelo levantamento planialtimétrico. Deveríamos começar pela geologia. Conhecer bem o suporte da cidade que vai nascer. O que temos hoje são os modelos de uso e ocupação do solo sem invenção, óbvios. Ou fazemos casas ou torre. Quando começamos do solo, compreendemos onde podemos cortar mais e onde não podemos, evitar ferir a terra, deixar o rio correr, afinal o rio foi feito para correr e inundar nas chuvas. As cidades precisam ter áreas de permeabilidade, exatamente para o rio não encher rapidamente. O complexo de prédios Paisagem, que projetamos no alto da Raja Gabaglia, propomos uma nova (nova não, os incas já fizeram há 600 anos atrás) maneira de “pousar” um edifício no solo: as construções escalonadas. É um projeto que respeita a topografia, escuta a geologia e gera edifícios verdes que se harmonizam com o espaço que ocupa. Sustentabilidade pra mim é isso: cidades onde o sistema viário é im não enfrenta a topografia, se moldam a ela. Cidade onde você possa caminhar com segurança e prazer, onde o trabalho fique perto da sua casa. Cidades misturadas, não cidades segregadas, onde se tem uma área especial para moradia, outra para escritórios, deferente do comércio e do lazer. Se as atividades estivessem equilibradamente juntas, diminuiríamos a dependência do sistema de transporte urbano, de aumentar a largura das avenidas indefinidamente. Cidade onde se possa usar as bicicletas em eixos de ciclovias exclusivos e descobrir caminhos lendo a topografia e a malha existente. Ligar Carlos Prates à Pampulha, ao centro e ao Belvedere sem sermos obrigados a lutar com os automóveis. Às vezes vamos passar por cima, em passarela, ou por baixo ou em pistas exclusivas. Queria também uma cidade verde, árvores e flores nativas, parques que se integram. A cidade é uma coisa viva.

JB - Como conciliar o desejo de se viver na cidade que cresce sem parar e a necessidade de preservação dos recursos naturais? O que fazer para não frear o progresso?

GP - Desde o primeiro dia em que o primeiro homem fez a primeira cidade, ele encara esse desafio. A primeira coisa é não tratar como uma mega cidade e sim como muitas cidades que formam uma grande cidade. Cada pequena área tem uma autonomia, tem sua história, tem a sua característica própria. É uma polaridade que se junta à outra e assim por diante. Cada parte é como uma célula. Precisa ser uma célula completa. Só assim acredito que as cidades cresçam harmonicamente. Porque uma coisa é certa. As pessoas não deixarão as cidades, porque ali foi onde os pais delas nasceram e os filhos dessas pessoas pensarão da mesma maneira. O crescimento vegetativo existe e não podemos parar isso. A não ser que esperemos por uma taxa de natalidade menor, o que se prevê num futuro próximo. Enquanto a taxa de natalidade for positiva, temos que pensar os espaços urbanos. Começar com a geologia, como já disse, e criar parques lineares. O parque linear não é aquele parque ilhado contornado por avenidas em todos os seus lados. O parque linear é um contínuo verde. Às vezes largos, às vezes estreitos, que permitem acolher o bicho que voa, o que salta, o que corre e o que rasteja, e a cadeia alimentar que os acompanha. Então você permite o surgimento da riqueza ambiental, da biodiversidade no espaço urbano. As cidades precisam também usar melhor seus espaços notáveis, topos de montanha, fundos de vale, amplas visadas para promover também a respiração do olhar.

JB - Como conciliar os ideais dos ambientalistas e dos empresários do segmento imobiliário, por exemplo?

GP - Eu acho que os ambientalistas e os empresários não precisam necessariamente estar em áreas opostas. Afinal, se eles estão, é porque falta diálogo. Se estabelece uma luta inglória. enfraquecida. Precisamos levar esse diálogo a sério com toda técnica e sensibilidade. Trabalhar com os novos mecanismos urbanos, as ferramentas contemporâneas que estão em vários pontos do mundo, promovendo essa conciliação. O que eu acho mais importante é o debate. Sentar para conversar. As cidades vão crescer, é inevitável, então como fazer com que ela cresça bem? Isso é problema para o ecólogo ou para o urbanista? Quem que vai problematizar isso e tentar uma solução? Tem que ter legislações pra isso. Nas legislações do passado diziam que o rio que passava pela cidade chama-se avenida sanitária. Olhe isso: os livros urbanísticos do passado chamavam o rio que passava pela cidade de Avenida Sanitária. Ora, quando se fala de avenidas, já pressupõe que a supressão das matas ciliares, as margens viram pista de rolamento. Quando se diz sanitárias, a coisa fica mais triste, pois denota o que pretende-se jogar dentro. Nós temos que mudar esse conceito. Os rios que cortam nossas cidades são os nossos parques lineares. Esse é um novo conceito. Os rios são lugares das crianças brincarem, dos idosos, de sombra, flor e pássaro. Nós temos que fazer cidade para idoso e para criança. O idoso hoje é isolado, solitário, já que não se vê com frequência calçadas caminháveis e amigáveis. A população brasileira está envelhecendo. Nós estamos preparados para isso? Se não estamos, alguém está se preparando. E se alguém sair na frente, a cidade dele talvez acolha melhor os idosos do futuro. Ela vai será mais humanamente viável, enquanto as outras serão abandonadas. E as crianças, onde ficam as crianças na cidade? Onde estão os grandes parques que pensam nos meninos? Tudo é feito sem um programa, sem um pensamento. As coisas são assim, espasmódicas. Tive a oportunidade de trabalhar no Parque Ecológico da Pampulha, que apresenta um bom resultado na convivência das famílias. Os mecanismos existem, a ciência urbanística já contempla o pensamento das cidades em harmonia com a natureza. É preciso conversar e colocar em prática.

JB - Nesta equação delicada, entre interesses diversos, que tantas vezes nos parecem incompatíveis, como o cidadão comum pode contribuir para alcançar a tão sonhada qualidade de vida? Pequenos gestos, cada um fazendo um pouco... Que posturas o senhor sugere?

GP - A população tem que ser bem informada nas questões da cidade, isso é que gera a verdadeira cidadania. Tem que ser formada desde a escola. O que é viver na cidade? Como discernir entre o fundamental e o pontual? O meu problema e o de todos? Existem causas, que por serem muitas vezes manipuladas por interesses ficam distorcidas na opinião pública. Elas têm que ser reais. Quanto de um lado quanto de outro. Na questão da lagoinha, a gente nota que os grupos que discutem, concordam que é interessante revitalizar áreas degradadas, diminuir a distância moradia-trabalho, preservar os espaços de história, evitar o aumento do fluxo de veículos. O que falta então? Informação de qualidade. Não podemos tirar da cidade essa relação que ela tem com o seu habitante, essa espontaneidade, essa naturalidade que a proximidade permite e que se artificializa com a distância. Ao invés de ser contra uma ideia sistemicamente, é importante analisar mais de perto e ver onde se encontra o lado benéfico. Quando acertamos a medida urbanística, os valor dos imóveis crescem, a preservação fica viável e o encontro das pessoas acontece. Eu acho muito interessante pensar um pouco nisso: Eu vi o mercado distrital do cruzeiro ser proibido de ter um novo uso e hoje ele pouco representa para a comunidade. O mercado de Santa Tereza também foi impedido de ser uma escola ou algo semelhante. A má informação, a meu ver aqui e ali vão impedindo a ressignificação de espaços urbanos. Aí eu pergunto: o que faz uma cidade crescer e outra não? Tenho certeza que é justamente por isso, existem cidade onde as coisas acontecem, fluem, em outras, como já ouvi dizer, os “acontecimentos se recusam a acontecer”. A cidade precisa de mobilização popular, mas de uma mobilização absolutamente informada, concreta. Se existem doenças na cidade, existem curas. Pode não haver cura para as doenças humanas, mas para as doenças da cidade tenho certeza que sempre existirá alguma a ser criada. Porque você pode ter a capacidade de remover, passar por baixo, por cima, tirar aquele uso, colocar um parque onde era uma torre. É possível substituir uma coisa por outra. Ainda bem.

JB - Que metrópoles (no mundo) você aponta hoje como exemplos viáveis de desenvolvimento harmônico? Por que?

GP - A cidade de chocolate, a cidade de jujuba não existem. Essa cidade que a gente poderia dizer que tudo é doce, feliz, não existe. Juntou gente, aparecem os problemas e as soluções. O que dá pra rir e para chorar. Existe alegria e existe tristeza em todas as cidades do mundo. Eu tenho uma impressão muito boa de Londres. Pela mistura de usos. Eu noto como aquela cidade cresce harmônica. Você não vê quarteirões vazios à noite. Sempre a cidade, de manhã, de tarde e de noite é usada a pé. Como o londrino anda! Todo mundo anda! A cidade convida a caminhada. Eu também gosto de Curitiba, que o Jaime Lerner fez um trabalho sensacional. Ele pensou nos rios, desapropriou edificações nas margens dos rios, transformou esse rio em parque, fez parques novos. Usou pedreira para fazer uma coisa, comprou lixo para fazer a limpeza das favelas. Ele foi criativo e corajoso nas suas invenções.

Cada cidade tem algo a ensinar para a gente. Cidades são como as pessoas. Ninguém está totalmente errado. Se você conversar, vai ver que pode tirar uma boa experiência dali. Eu acho que a gente tem que estar aberto, generosamente aberto ao conhecimento. Belo Horizonte não vai repetir nada do que nenhuma cidade fez porque ela tem a sua peculiaridade. Só existe uma Belo Horizonte no mundo e eu acho que essa cidade tem que ser tratada por pessoas comprometidas com a história dela, com as “belo-horizontisses” que são típicas dessa cidade. É uma cidade mineira, feita por mineiros de todas as partes. Em Belo Horizonte, não chega a 5% o número de estrangeiros de outros países e outros estados. Imagina que em São Paulo é mais ou menos meio a meio e no Rio de Janeiro é 40% a 60%. Mais de 90% da cidade de Belo horizonte é constituída por mineiros. Se ela é tão mineira, ela tem realidades do sul de minas, do triângulo mineiro, do norte de minas, do Jequitinhonha, do centro de minas, ela é isso. Por isso que ela cheia de botequim, de comida gostosa, de esquina, de músicas que vieram das várias partes do interior. Porque Minas Gerais tem essa característica. Gerou a cultura brasileira, aqui é o berço da cultura brasileira.

JB - Como o senhor resume o seu conceito de “acupuntura urbana”?

GP - Acupuntura urbana é um conceito criado por Jaime Lerner. Quando você quer atuar numa região, numa área, você vai lá e coloca um equipamento público, numa região específica, pontual. Esse equipamento gera qualidade em torno dele. Isso é que é acupuntura urbana. Todas as vezes que você faz um ato desses, tem que ser um ato simbólico, tem que ter conhecimento da região, saber o que o povo precisa saber da história daquele lugar e saber a capacidade de mobilização que o equipamento já traz com a sua própria atividade. Então nesse momento você faz acupunturas que geram realmente uma onda de saúde, pois melhora a performance da área, como uma terapia de requalificação e regeneração daquela região. Eu acho essa ideia muito bem feita, principalmente quando não temos muito recurso. Voltando ao Parque Ecológico da Pampulha, penso que foi um exemplo acupuntura urbana porque gerou uma requalificação daquela região. Aquilo era uma espécie de vergonha, uma coisa degradante. A troca da função dele por um parque ecológico fez retornar as aves, os pássaros, o verde e as pessoas passaram a usá-lo. Houve uma convergência de pessoas de várias regiões praquele ponto o que já gerou um comércio, uma vida em tempo integral. Esta atitude é generosa, é um gesto que causa ressonâncias positivas.

JB - Você revolucionou a região com projetos arrojados que contemplam o vidro e mostram que é possível morar em meio às montanhas, de forma verticalizada. Também vem lançando por toda a cidade e mais precisamente sobre a região do Vale do Sereno projetos inovadores que primam pela convivência e pela descentralização das cidades. Nessa experiência, tão particular, qual foi o seu maior desafio? E o seu grande motivo de orgulho?

GP - Confesso que toda vez que fazia habitação vertical, lançada para o mercado, eu tinha um certo preconceito. Depois eu vi que esse preconceito era infundado porque como dizer que uma área importante da produção arquitetônica não pode ser ocupada por pessoas que pensam conceitualmente, com estética diferente? Aí eu fiz o Santiago de Compostela, há 18 anos. O Santiago de Compostela é o primeiro edifício monocromático, monomatérico de Belo Horizonte. Com coroamento bem cuidado, sem portão, sem gradil. Não tem vitrine para porteiro, não tem mega salões de entrada, aquela ode ao desperdício. Eu tenho alegria de ter feito o Santiago de Compostela que gerou uma posteridade. Apareceram muitos prédios mais claros, monocromáticos e com uso de um material mais limpo. Vejo também que as composições ficaram mais ricas. Agora estou pesquisando essa questão do escalonado. Quero aprofundar nisso e valorizar os prédios vegetais. Voltar com as varandas verdes, usar materiais mais humanos, combinar o concreto aparente à madeira, usar forros de madeira. Quando vamos para a periferia, a cara dos prédios deveriam mudar. Um prédio que está na borda da montanha não deveria ter a mesma cara do edifício que está no bairro de Lourdes, na praça sete ou no coração eucarístico. Cada bairro tinha que ter o seu jeito. Temos criatividade pra isso. Nós devíamos fazer com que os bairros usassem os seus prédios como uma forma de caracterizá-los, para diferençar um do outro. São questões muito fáceis de notar, porque o sol é diferente, a topografia é diferente, a luminosidade de cada bairro é diferente uma da outra. É preciso trabalhar com qualidade. Porque nunca vi uma pessoa se arrepender por ter feito uma coisa bem feita, mas já vi muita gente se arrepender de não ter dado tempo pra arte. A grande maioria dos nossos construtores insiste em construir sem arte, repetidamente. Todos os arquitetos deviam pensar a cidade. Eu acho que quando o arquiteto pensa a cidade ele está realizando a missão para qual ele foi preparado. E ele não tem só o direito de fazer isso, ele tem a obrigação. O desafio é a criatividade, descobrir maneiras criativas de resolver os problemas das cidades. Isso é o que me anima a ir trabalhar na segunda-feira, não para repetir o que eu fiz no dia anterior, e sim para mudar aquilo que não esteja indo bem. Temos que trabalhar a cidade de uma forma extremamente madura, afetiva. Essa cidade é onde moram os nossos amores, onde moram os cidadãos, os belo-horizontinos. Propus um monumento ao belo-horizontino, porque é o único que não é homenageado nessa história toda e é testemunha ativa de todo o processo da luta de uma cidade. Então a gente tem que saber o que significa ser belo-horizontino, o que tem de comum entre nós. E esse comum entre nós é que vai desenhar o nosso perfil, o nosso caráter. Uma cidade que tem personalidade.

JB - Quais são suas metas (trabalho, realização de projetos pessoais) para os próximos anos?

GP - A meta maior não uma coisa material não. A meta maior é continuar tendo alegria de criar e a liberdade pra propor. Ter um escritório cheio de gente inteligente e interessante. Conversar com pessoas interessantes. Fazer um trabalho que seja a continuação daquilo que os que amaram a nossa terra fizeram no passado. Porque nós não podemos desconsiderar a linha de pensamento tão interessante que criou Belo Horizonte. Teve tanta gente forte, poderosa, gente brilhante que fez esse caminho. Nós temos que estar junto nessa história, acreditando na maneira que os mestres pensaram, naqueles princípios que fazem da nossa profissão, uma profissão necessária e não uma profissão superficial e indiferente em relação ao processo.
Nós somos construtores de um novo tempo, a cidade é uma soma de tempos. Então nós somos construtores desse tempo que possa ser somado naturalmente ao tempo passado e será somado naturalmente ao tempo futuro.

JB - Qual seria, na sua opinião, a cidade ideal para se viver? Ou melhor dizendo, o ideal de cidade? (podemos sonhar, sem problemas...) .

GP - A cidade onde você pode ir a pé para o trabalho, caminhar, encontrar os amigos, não ter medo de nada. Uma cidade em que as pessoas não se escodam atrás de muro. A cidade em que você possa ser surpreendido por um passarinho, por uma flor bonita. Uma cidade em que você volta e tudo que você amou está no mesmo lugar. A cidade onde as coisas feias possam ser demolidas. A cidade que seja valorizada, que exerça cidadania e tenha autoestima.

 

Última modificação em Terça, 01 Outubro 2013 09:35
Jornal Belvedere

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