21 Jul, 2017 Última atualização em 4:44 PM, Jul 12, 2017

Corredores viários são fundamentais para verticalizar

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Entrevista / Bernardo Farkasvölgyi • arquiteto

Para o arquiteto Bernardo Farkasvölgyi a verticalização significa também reduzir uma pressão sobre as áreas de vegetação natural e a valorização de espaços.

Bernardo1Arquiteto é autor do Complexo Andradas, um edifício de 85 andares distribuídos em 350 metros de altura que pode mudar o cenário arquitetônico da Capital mineira.

O arquiteto Bernardo Farkasvölgyi, diretor da FarKasVölGyi Arquitetura, está propondo um obra desafiadora para os mineiros e que ao mesmo tempo pode criar um marco na arquitetura e no setor de construção do Estado, além abrir novas perspectivas econômicas e turísticas: o Projeto Complexo Andradas. O edifício, de 85 andares distribuídos em 350 metros de altura, tamanho três vezes e meio superior ao conjunto JK, promete trazer para Minas o maior arranha-céu da América Latina, posto hoje ocupado pelo Trump Ocean Club International, de 300 metros de altura, localizado na Cidade do Panamá. Com ele, também viria o turismo arquitetônico, hoje responsável por mais de um terço das receitas de Dubai, nos Emirados Árabes. Os números megas, comuns em cidades como Dubai, Tóquio, Hong Kong e Nova York, podem fazer parte do cenário arquitetônico da capital mineira.

Nesta entrevista ao JORNAL BELVEDERE, o arquiteto Bernardo Farkasvölgyi expõe a sua visão do conceito de “Cidades Sustentáveis e Cidades Inteligentes”:

 

JORNAL BELVEDERE – Diante da proposta como esta do Complexo Andradas, localizado ao longo do Bulevar Arrudas, em um terreno de 85 mil m2, qual o seu ponto de vista em relação à verticalização das metrópoles?
BERNARDO FARKASVÖLGYI - Quando penso em verticalização, busco sempre associá-la a uma visão sustentável e que tem fundamento na teoria das cidades compactas. Ou seja, áreas verticalizadas, com infraestrutura correta e atenção ao uso misto (onde as pessoas moram, trabalham e se divertem sem a necessidade de grandes deslocamentos), representam melhorias na qualidade de vida, da mobilidade urbana, bem como melhorias no uso dos serviços e recursos públicos que ali empregados podem atender a mais pessoas e mais racional.
Nesse sentido, a verticalização significa também reduzir uma pressão sobre as áreas de vegetação natural e a valorização de espaços de “respiro”, como praças, parques e percursos verdes pedonais e cicláveis. Pensar a verticalização dessa maneira é uma visão extremamente coerente e positiva, mas é uma realidade que se torna possível apenas com um correto planejamento e a compreensão de todos os envolvidos – setor público e privado.
No caso de Belo Horizonte, sou completamente contrário à verticalização, por exemplo, da Pampulha e Cidade Jardim. São áreas estritamente residenciais e é importantíssimo manter a característica original.  E por quê? Porque se ainda existe a possibilidade de se verticalizar em áreas de corredores viários, esse é o caminho. É o caso, por exemplo, da operação urbana que a prefeitura está se preparando para fazer na região da Avenida dos Andradas, onde temos, o projeto do Complexo Andradas. É um corredor viário com ampla estrutura urbana e que oferece a possibilidade de se fazer uma verticalização adequada, considerando parâmetros urbanísticos como sustentabilidade, iluminação, ventilação. Podemos até entender que a visão do empreendedor sempre caminhou no sentido de lotear e ocupar o máximo possível. Mas, é preciso, realmente, levar em consideração uma visão urbanística coerente e adequada para que a verticalização ocorra de forma inteligente e sustentável.  
Coloco o foco na questão de se priorizar os corredores viários porque essa é uma solução muito mais interessante do que implementar a verticalização em bairros de extremos, como ocorreu com o Belvedere. No parcelamento do bairro, as ruas foram feitas muito estreitas. Parte dos prédios existentes foi aprovada dentro da lei que ficou em vigor até 1996 e na qual o potencial chegava a até três vezes a área líquida do terreno. Os afastamentos não eram generosos naquela lei e o resultado foi uma aglomeração forte, com edificações verticalizadas e próximas umas das outras.  Ou seja, sou a favor da verticalização, mas ela tem que ser muito bem estudada nas suas formas e condições de implementação e considerando onde deve e onde não deve ser feita dentro das cidades.  

Com que critérios e planejamento que a verticalização pode ocorrer e se tonar um avanço na sustentabilidade?  
Como coloquei, a verticalização deve acontecer considerando fatores como infraestrutura, mobilidade urbana e incentivo ao uso misto. Por isso, principalmente, devemos dar atenção aos corredores viários ou de tráfego, que oferecem condições propícias nesse sentido. E aí entra a compreensão de que para ocorrer uma ocupação razoável nas cidades já consolidadas não existe outro caminho a não ser a verticalização das áreas que já estão verticalizadas.
Em Belo Horizonte, os bons exemplos as possibilidades oferecidas pelas avenidas dos Andradas e Antônio Carlos (nesta segunda, o trecho inicial, antes de chegar à Pampulha) e a Via Expressa.  

Que indicadores, em sua opinião, mostram que a verticalização pode se dar em uma dada região e em outra não?
Para visualizar isso, posso citar como exemplo a Pampulha. É um bairro que tem uma característica própria e é completamente horizontalizado. Pode-se começar a colocar prédios em volta da Lagoa? Absolutamente não. Não é esse o caminho, principalmente se existem áreas onde é possível realizar a verticalização, como no caso já citados.  
A compreensão de onde ou não adotar o adensamento urbano e a verticalização passa por um amplo discernimento do que é especulação imobiliária e uma real visão dos ganhos ou perdas que a região e o bairro envolvidos podem ter.

O adensamento, segundo suas declarações já expostas aos meios de comunicação, deve partir do centro de um bairro.  Por que razão?
Mais uma vez, essa é uma afirmação que está fundamentada na importância dos corredores viários ou de tráfego, que ajudam a viabilizar um correto adensamento verticalizado. As áreas centrais dos bairros são aquelas que primeiramente foram loteadas e ocupadas e, por isso, onde já existe uma melhor infraestrutura e onde se encontram as principais vias de acesso. Ou seja, locais mais propícios para os prédios mais altos. A verticalização se dará em um sentido radial no qual os prédios vão se tornado mais baixos do centro para fora.
De qualquer forma, é uma solução que tem que levar em conta uma análise aprofundada da topografia, insolação, mobilidade urbana e que tipo de uso se fará. Não é simplesmente partir do centro e depois verticalizar o bairro inteiro. Aliás, é um trabalho urbanístico que envolve outras disciplinas – e não apenas a arquitetura – para realmente se obter um posicionamento razoável daquilo que pode e não pode ser feito.  

Neste contexto, que exemplos de um bom planejamento urbano, em se tratando de cidades compactas, o senhor citaria?
No Brasil temos um bom exemplo que é Curitiba. Uma cidade símbolo de compactação planejada, baseada em um adensamento não necessariamente vertical, feito levando em consideração os corredores de tráfego, nos quais também foi implantado o sistema BRT.
Mas para mim, o melhor exemplo em termos de planejamento no qual a verticalização é resultado de uma visão urbanística ampla é Barcelona. Não é uma cidade extremamente vertical, mas cuja verticalização acontece de forma pontual. De frente à praia, por exemplo, temos prédios bem verticalizados, mas não muitos, pois o entendimento do planejamento urbano da cidade é manter visadas de todos os lados e não descaracterizar o cenário urbano. Os prédios, de arquitetura cuidadosa, obrigatoriamente entram no contexto da cidade como novos marcos, podendo inclusive contrastar positivamente com as edificações históricas, enriquecendo-a.

Levando-se em conta aspectos como mobilidade urbana, preservação do meio ambiente e do patrimônio histórico, que cidades (no mundo) o senhor destacaria como referência de qualidade de vida para seus moradores? Poderia, por gentileza, justificar tais exemplos?
Barcelona. Mas também posso citar Londres e Paris, que que investem no adensamento verticalizado e soluções sustentáveis. Cidades que no seu planejamento compreendem também a “conversa” que deve existir entre o novo e o antigo de forma a valorizar e enriquecer o cenário e seu patrimônio histórico, além de tomar como base a mobilidade, a atenção a sistemas de transporte coletivo eficientes.

Jornal Belvedere

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