21 Sep, 2017 Última atualização em 4:59 PM, Sep 12, 2017

Cidades sustentáveis: o lixo nosso de cada dia

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Por Roberto Messias Franco

Secretário de Meio Ambiente de Nova Lima

Quando nos debruçamos sobre os problemas que atingem as cidades em qualquer lugar do mundo, hoje, vemos que há um que é onipresente, e igualmente dificílimo de ser solucionado: o quê fazer com as enormes quantidades de resíduos que geramos, em todas as atividades humanas?

fotoRobertoMessiasComparando com o que existia ao longo da história da humanidade, há alguns anos o físico e professor da USP José Zatz, em um artigo interessantíssimo, partia do consumo energético para chegar a uma explicação, inclusive, das mudanças climáticas e consequências ecológicas para o Planeta de nosso atual modelo desperdiçador de energia. Antes mesmo do conhecido relatório do IPCC , o “Painel Internacional sobre mudanças Climáticas” das Nações Unidas.

Diz ele – e faço um breve resumo - que o homem pré-histórico tinha um gasto calórico diário aproximado de 8.000 calorias per capita dia, ou seja, era basicamente a energia que seu organismo gastava para andar, caçar, deslocar-se a pé, etc. Ele vivia em cavernas, não tinha luz elétrica nem meios de transporte motorizados, se vestia de peles de animais e de tecidos rústicos.

A energia que despendia era uma energia metabólica, ou seja, gerada por seres vivos (até a carne de caça e os vegetais que colhia, e os instrumentos de que dispunha eram movidos por sua força manual). Com o advento da máquina a vapor, no Século XVIII, este gasto passa a 75.000 calorias per capita dia, lembrando-se que então os navios a vapor, os trens de ferro, as caldeiras das fundições eram já fontes de calor e de poluição.  Mas os prédios ainda eram baixos, não existiam elevadores e nem mesmo os sistemas elevatórios para água; um banheiro para uma habitação familiar era um luxo ...

O uso intensivo dos combustíveis fósseis – o carvão o petróleo e posteriormente o gás fizeram este gasto chegar no Século XX a 250.000 calorias per capita dia, gerando além de uma enorme quantidade de resíduos ilhas de calor nas áreas urbanizadas. E nas grandes metrópoles modernas e integradas à sociedade de consumo ele alcança em média 750.000 calorias per capita dia.
O crescimento populacional – a população mundial que não chegava a 2 bilhões de seres humanos há um século (em 1910) hoje passa de 7 bilhões  - vai tornar absurdamente grande, e insuportável para o equilíbrio dos mecanismos naturais de absorção dos impactos da ação humana.

São milhares de toneladas de embalagens e produtos constantemente jogadas fora e diariamente recolhidas e encaminhadas aos aterros sanitários quando não a lixões que expõem a dolorosa chaga social que são pessoas tentando sobreviver destes restos do consumo, e também milhões de toneladas de CO2 e outros gases  que vão para a atmosfera.
Em Nova Lima, por exemplo, são recolhidos por dia um volume superior a 80 toneladas de lixo, o que perfaz uma média de mais de 1 quilo por pessoa. Em Belo Horizonte não é muito diferente, nem em nossas várias cidades.

Colocamo-nos então face ao desafio e à ameaça cotidiana: o que fazer com nosso lixo? Torna-se clássica a equação dos “erres”: reduzir, reusar, reciclar. Buscar em suma que os produtos que compremos sejam em menor quantidade, dure mais, sejam menos desperdiçadores de energia, possam ser reutilizadas mais vezes, e quando descartados possam ser reciclados, como o clássico caso das latinhas de alumínio.

Mas o próprio princípio da reciclagem, ainda que universalmente aceito, quando se trata de implementar, na prática encontra  grandes dificuldades, que vão da educação para o consumo consciente até a disciplina na separação e disposição do lixo, de maneira a facilitar o manuseio quando este chega aos postos de separação e triagem. E esta dificuldade se vê quando cidades como São Paulo e Belo Horizonte, apesar de esforços que já duram mais de 20 anos, ainda não chegam a 2% de seu lixo destinado a processos de reciclagem. Se pensarmos que 70% dos resíduos são embalagens dos produtos que utilizamos, vemos o tamanho do desafio.

Elaborar programas integrados de conscientização, de coleta e de destinação fortalecendo e apoiando a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis (ASCAP) e outras iniciativas, sobretudo as que privilegiem a descentralização da coleta, aumentar a rede de pontos de entrega, e propiciar a economicidade destas atividades, ou seja, que elas possam gerar renda para os participantes, são alguns de nossos grandes desafios, locais mas também civilizatórios.

Finalmente, talvez mais essencial que os três erres a que nos referimos acima há um quarto “erre”, que vi escrito em uma camiseta que ganhei da FEAM e uso: “repensar”.
Temos mesmo que repensar: nossas vidas, nossas atitudes e nosso compromisso com o futuro.

 

Jornal Belvedere

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