23 Nov, 2017 Última atualização em 1:26 PM, Nov 13, 2017

Nosso projeto só dá certo se for uma centralidade

Maury Bastos  | O Projeto CSul pretende fomentar o desenvolvimento econômico, ambiental, social, cultural e urbanístico da região da Lagoa dos Ingleses para os próximos anos Maury Bastos | O Projeto CSul pretende fomentar o desenvolvimento econômico, ambiental, social, cultural e urbanístico da região da Lagoa dos Ingleses para os próximos anos
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Entrevista • Maury Bastos | Presidente da CSul Desenvolvimento Urbano

É sabido pela grande maioria da população que Belo Horizonte nunca foi o destino escolhido por migrantes de outros Estados.

Entretanto, a Capital é referência regional na oferta de serviços diversos e vem atraindo, de fato, pessoas que se deslocam do interior em busca de saúde, educação, oportunidades de emprego, produtos diferenciados do comércio e até mesmo atividades de lazer. Notadamente, a cada ano essa demanda vem aumentando e transferindo para os grandes eixos de desenvolvimento uma migração maior, tornando o movimento pendular populacional nos grandes vetores da Região Metropolitana cada vez mais intenso.

Cidades do Vetor Sul como Nova Lima, Itabirito, Moeda, Brumadinho, Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Ouro Branco, Ouro Preto e Mariana, por exemplo, buscam na Capital o atendimento à saúde de média e alta complexidade, ensino superior e pós-graduação e nos grandes shoppings a opção de compra e lazer, pelo simples fato das cidades ora citadas não possuírem nem mesmo uma sala de cinema. A atração pela diversão e serviços incrementa o saldo migratório entre as cidades e contribui para impactar a mobilidade em várias regiões da Capital. Quando procuram por esses serviços em Belo Horizonte, os moradores de outras cidades tornam-se responsáveis pelo processo de inversão espacial e obrigam as autoridades a pensarem em um plano de mobilidade ideal para conjugar a inevitável expansão urbana e a qualidade de vida.

Esse padrão tão sonhado, de expansão e formalização de novos núcleos estruturados e de referência regional, vem ganhando vida através das novas centralidades. E essas, por sua vez, precisam potencializar a capacidade de atração através do novo conceito de organização territorial, com a constituição de espaços urbanos onde se possa morar, trabalhar, comprar e se divertir em um mesmo local, a fim de diminuir deslocamentos e aglutinar a integração de todas as demandas pelos serviços da vida cotidiana. Essa é a solução para a mobilidade urbana e o segredo do bem-estar, conforto e a comodidade.

O crescimento do Vetor Sul deve-se, principalmente, à carência de espaços para ocupação territorial na Zona Sul da Capital mineira. E foi esse diagnóstico de escassez territorial, aliado aos graves problemas dos movimentos pendulares, que originou a proposta de criação e fortalecimento de novas centralidades metropolitanas pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado-PDDI da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Considerada a centralidade mais próxima de se tornar realidade, a Centralidade Sul mostra-se preparada para assumir seu papel de concentrar todos os serviços da vida cotidiana numa região e ao mesmo tempo de cumprir o importante papel de retenção das demandas oriundas de várias cidades vizinhas que atualmente têm a Capital como referência. Nessa entrevista, o presidente da CSul, Maury Bastos, que assumiu no início de 2016 o comando da CSul Desenvolvimento Urbano - conta como o Projeto CSul, um masterplan urbanístico idealizado por Jaime Lerner (ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná), que será implantado numa área de 20 milhões de metros quadrados, na Região da Lagoa dos Ingleses, e vai gerar grandes reflexos positivos na região.

A principal meta do Masterplan é fomentar o desenvolvimento econômico, ambiental, social, cultural e urbanístico da Região da Lagoa dos Ingleses, atraindo novos empreendimentos, para dotar a região de toda a infraestrutura necessária e garantir alternativas de moradia, trabalho e lazer de alta qualidade. Ao JORNAL BELVEDERE, Maury Bastos fala um pouco sobre esse desafio, em especial sobre o tema mobilidade e como ele foi tratado no Masterplan.


Qual é a realidade da mobilidade na Região Centro Sul?

Maury Bastos – Temos uma pesquisa que encomendamos em 2013 e que revela o que já sabíamos pela vivência na região: existe uma população de aproximadamente 1.600.000 pessoas nas Regiões Centro Sul, Alto Paraopeba e Inconfidentes (leia-se até Conselheiro Lafaiete e até Mariana), entretanto cerca de 81% dos empregos estão concentrados na Região Centro Sul de Belo Horizonte. Ou seja, uma parcela significativa de trabalhadores das regiões do Alto Paraopeba e Inconfidentes têm que buscar oportunidades de trabalho fora da região onde residem, e realizando assim esse movimento pendular todos os dias até Belo Horizonte em busca de trabalho, e outras demandas da vida cotidiana. Temos também, embora em um número menor, pessoas que se deslocam até de cidades mais distantes, como Ponte Nova e Ouro Branco, em busca desses serviços. Com isso, são milhares de pessoas fazendo diariamente este deslocamento pela BR-040 e Rodovia dos Inconfidentes, não por opção, mas por uma relação de dependência em relação aos serviços ofertados somente na Capital.
Estes deslocamentos também incluem a busca por lazer?
Maury Bastos – Com relação ao lazer, eu costumo sempre dar o exemplo do cinema. Se as pessoas dessas cidades quiserem ir a um cinema, elas precisam dirigir no mínimo cerca de 50 quilômetros (falando de Itabirito) até BH, onde encontrarão o cinema mais próximo.

Fale um pouco sobre essa retenção que a CSul pretende...

Maury Bastos – O Projeto da CSul será bem sucedido se a região se transformar numa centralidade, que ofereça opções de moradia, trabalho, oferta de serviços e de lazer. Se ela não for uma referência nesse sentido, não desempenhará também a sua função de retenção dos fluxos pendulares originários de sua própria ocupação territorial e das cidades mais ao sul (vindas das regiões dos Inconfidentes e Alto Paraopeba) e, com isso, nós não alcançaremos sucesso com o empreendimento. Essa é a visão estratégica do Estado, consolidada no macrozoneamento e no PDDI (Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado), que foram coordenados pela UFMG, em parceria com PUC e UEMG, e que propôs a criação das novas centralidades metropolitanas: uma mais ao norte, na Região de Confins, uma a oeste, na Região de Contagem e Betim e uma ao sul, na Região da Lagoa dos Ingleses, no entroncamento das BR’s 040 e 356. E, dentro desse planejamento, o nosso Projeto da Centralidade Sul está muito bem encaminhado, uma vez que já foi desenvolvido o plano urbanístico pelo Jaime Lerner, já se encontra em fase final o processo de Licença Prévia junto à SEMAD e, tão logo seja emitida a LP, iniciaremos o processo de Licença de Implantação e aprovação urbanística da primeira área a ser desenvolvida. E o quanto antes se iniciarem as nossas ações de fomento e desenvolvimento local, também ocorrerá a redução do movimento pendular. O nosso papel é beneficiar toda a economia regional.

Quais são os equipamentos previstos pelo Projeto?

Maury Bastos – Nosso Projeto prevê escolas, hospitais, prestação de serviços de alta tecnologia, indústrias limpas de biotecnologia, de desenvolvimento de softwares etc. Atualmente, já temos instalados no Alphaville Lagoa dos Ingleses uma indústria de insulina, uma de lentes de contato, uma de aparelhos desfibriladores cardíacos e de equipamentos cirúrgicos para oftalmologia, gerando tributos e empregos. No mesmo local, está em fase de instalação a Biocom, que é fornecedora de insumos para laboratórios clínicos. São empresas absolutamente limpas, sem descarte ambiental. E esse é o perfil da indústria que pretendemos para o nosso empreendimento que possui mais 726 mil metros quadrados apenas para este tipo de indústria.

Na área da educação, o que a CSul planeja para evitar deslocamentos e atrair pessoas de regiões próximas à Lagoa dos Ingleses?

Maury Bastos – Atualmente, a Lagoa já dispõe de duas escolas bilingues que contemplam desde o ensino infantil até o ensino médio. Estamos neste momento negociando com uma instituição referência no País para se instalar aqui com cursos de graduação e pós-graduação. Acreditamos que ela estará em operação num futuro próximo, após as aprovações governamentais necessárias.

Com que números de empregos a CSul trabalha?

Maury Bastos – A nossa expectativa é de gerar 80 mil empregos, que vão de um jardineiro a um professor universitário. As tipologias contempladas no Masterplan tem oportunidades para uma grande variedade de profissões.

Que empreendimentos gerariam essa quantidade de emprego?

Maury Bastos – Podemos começar citando o Outlet do Grupo Iguatemi, com grande capacidade geradora de empregos diretos e indiretos e que já está em licenciamento ambiental com previsão para entrar em funcionamento nos próximos anos. Teremos no final de 2017 a entrega das primeiras lojas de um open mall do Grupo EPO, composto por 27 lojas, incluindo um supermercado, uma drogaria e três salas de cinema que irão atender a toda região.

Como a CSul está ajudando na questão da mobilidade?

Maury Bastos – Nós assumimos um compromisso com a Superintendência Regional de Meio Ambiente (Supram) da realização de um programa anual de monitoramento do trânsito na região durante os próximos anos de nosso Projeto. Vamos fornecer esses números também para a Concessionária local, responsável pela rodovia, para a Prefeitura de Nova Lima, Itabirito e para os órgãos estaduais a fim de prover subsídios para o planejamento da mobilidade regional, incluindo é claro essa integração do desenvolvimento local com o transporte público. Acredito que teremos na região um misto de transporte municipal, intermunicipal e complementar.

O Projeto CSul conta também com subcentralidades. Poderia dar um exemplo?

Maury Bastos – O bairro Jardim Canadá é um desses exemplos. Ele auxilia não apenas o bairro Alphaville, mas um grande número de condomínios na região. O Jardim Canadá e entorno reúnem aproximadamente 1.300 pessoas jurídicas, oferecendo os mais variados tipos de serviços, entre públicos e privados, que atendem a Região Noroeste de Nova Lima. E isso altera significativamente os deslocamentos até Belo Horizonte. E, no futuro, esperamos que ele esteja muito mais desenvolvido e organizado. No masterplan proposto pela CSul, devido a suas dimensões territoriais, foram planejadas três subcentralidades, que abrigarão em cada uma delas essa variedade de serviços e também diversas opções de moradia, para que no futuro não tenhamos movimentos pendulares no interior da área de Projeto.
Ou seja, em termos de oferta de serviços da vida cotidiana, cada subcentralidade terá vida própria, contribuindo para a redução do tráfego de automóveis e contribuindo para maior qualidade de vida. Essas subcentralidades estão sempre localizadas lindeiras ao eixo viário estruturante, para facilitar os acessos pelos diversos tipos de transporte, uma vez que se configuram como referências locais na oferta e prestação de serviços, se tornando polos de atração de fluxos. Esse eixo estruturante já foi projetado com largura suficiente para abrigar os mais variados espaços: pedestres, ciclovia, iluminação pública, arborização viária, automóveis e transporte coletivo. Essa via já será projetada com sua largura total e, no momento em que houver demanda para o transporte público, não será necessário que a administração municipal realize desapropriações para viabilizar os corredores de transporte coletivo, como ocorreu com eixo da Avenida Antônio Carlos, em Belo Horizonte, por exemplo.

E a conexão com o trânsito externo?

Maury Bastos – No nosso Projeto temos duas estações intermunicipais localizadas nas duas extremidades do eixo viário estruturante, ou seja, nas “bordas” do empreendimento, para evitar que o trânsito externo impacte as vias internas. A partir deste modal as pessoas irão acessar o transporte interno, que no futuro poderá ser um ônibus elétrico, por exemplo. Ainda não sabemos o que a evolução tecnológica e de planejamento da mobilidade nos reservará no futuro.

Qual é a sua opinião com relação à construção (finalização) da Via Rio de Peixe, que liga o Centro de Nova Lima à região próxima à CSul?

Maury Bastos – Acho que é muito interessante para a CSul e importantíssimo para Nova Lima. Seria uma alternativa para que o centro do município se ligue economicamente a outras regiões ocupadas dentro de seu próprio território, principalmente com a Região do Jardim Canadá, que tem um comércio tão ativo, além da conexão com condomínios que também são importantes para a economia de Nova Lima. Ela reduziria sensivelmente o tempo de deslocamento das pessoas. E, com a Via Rio de Peixe, nosso empreendimento poderia dar uma reciprocidade que a cidade merece. Atualmente, por exemplo, a maioria das pessoas que trabalham em Alphaville não é de Nova Lima.

Última modificação em Terça, 29 Novembro 2016 16:24
Jornal Belvedere

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