A difícil tarefa de tornar a sala de aula mais atrativa que a internet

Publicado Quinta, 26 Janeiro 2017 10:51
Pachecão: Hoje,  um jovem consegue ficar apenas seis minutos concentrado. O excesso de informações e de estímulos digitais dificulta o foco do aluno © Foto: divulgação/arquivo pessoal Pachecão: Hoje, um jovem consegue ficar apenas seis minutos concentrado. O excesso de informações e de estímulos digitais dificulta o foco do aluno © Foto: divulgação/arquivo pessoal

O empresário, docente e palestrante, “Pachecão’, conta os desafios da profissão de professor frente aos atrativos tecnológicos.

Manter-se concentrado nunca foi uma tarefa fácil. As recentes mudanças no modo como consumimos conteúdo online têm alterado significativamente nossa forma de lidar com tarefas do mundo real e interferido até em nossa capacidade de concentração. Se o assunto não nos desperta extremo interesse, o esforço se torna ainda maior. Para quem estuda, o desafio é vencer a tentação do paraíso das notificações, likes e trending topics, sempre a um clique de distância. Para quem ensina, o desafio é se renovar e superar esses atrativos para ganhar a atenção dos alunos, muitas vezes, usando o próprio mundo digital a seu favor.

Quatro minutos e vinte segundos. Esse é o tempo médio dos vídeos mais populares do youtube americano, de acordo com a comScore Inc., empresa de mensuração de cross-platform, marcas e comportamento do consumidor. Os vídeos populares mais longos chegam a, no máximo, nove minutos. Nas escolas, a aula de uma disciplina tem a duração de 50 minutos, quando não são dois horários consecutivos. E a maior parte da audiência presente ali não escolheu assistir àquele conteúdo e, se pudesse escolher, preferiria estar consumindo algo do site de compartilhamento de vídeos americanos.

Fundador do método de ensino Eccellente, José Inácio da Silva Pereira, mais conhecido como “Pachecão”, famoso por suas “aulas show” de física, acredita que para se ter aprendizado, é preciso ter interesse. “Ninguém ensina nada para alguém, se esse alguém não quiser. Se a porta não estiver aberta, não haverá aprendizado”, afirma. Acontece que o interesse em temas necessários, como os de sala de aula, tende a diminuir proporcionalmente ao aumento das novidades de entretenimento e fenômenos de popularidade que surgem na internet. Aliado a isso, temos o fato de que a linguagem da internet é de muito fácil digestão, e nosso cérebro se acostuma a ela. Vídeos são curtos, dinâmicos e cheios de cortes, para que estejamos sempre alerta. E os textos de história? As timelines das redes sociais nos alimentam com uma rolagem infinita de novidades. E a tabela periódica de química?

Vilão ou salvação

Apesar dos efeitos negativos que a cultura digital possa ter trago para a sala de aula, há sim um lado positivo. O empresário e professor Pachecão enxerga bem isso no dia a dia de sua rede de ensino. “Acontece de os professores começarem a falar de uma matéria e alguns alunos já terem tido contato com o assunto, por conta de vídeos ou redes sociais, o que os deixam mais envolvidos nos debates e reforça a memorização”, ressalta. Isso se confirma em pesquisa da E-Learning Infographics, que constatou que 68% dos professores acreditam que conteúdo em vídeo estimula discussões em sala de aula. Outros 66% consideram que o vídeo é uma grande ferramenta para aumentar a motivação dos estudantes.

A realidade mostra que mudanças são nossa única certeza. Elas chegam e afetam todas as áreas, e a educação não poderia ficar de fora. Para professores, peças mais importantes nesse tabuleiro, ficam mais que um desafio: uma missão de se adaptar e usar as novas ferramentas em prol da criação e difusão do conhecimento. Para isso, é preciso que mestres se portem também como eternos aprendizes.

Excesso de informações e de estímulos digitais

Pachecão explica que,  hoje,  um jovem consegue ficar apenas seis minutos concentrado. O excesso de informações e de estímulos digitais, como o uso das novas tecnologias dificulta o foco do aluno. Muitos sofrem da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA), desordem que o psiquiatra Augusto Cury explicou como sendo uma torrente de conversas que a mente mantém com a gente, em meio ao frenético burburinho de informações que não param de chegar. Os efeitos colaterais disso são inquietação, hiperatividade, flutuação emocional, déficit de concentração, esquecimento, dentre outros. Estima-se que 80% da população mundial sofra dessa síndrome, número que vem crescendo, em parte, por conta da imersão no acelerado mundo digital. Não obstante, em recente entrevista ao jornal El País, a antropóloga americana, Amber Case, chegou a comparar o celular ao novo cigarro, “mas seu uso está nos desconectando e escravizando. Se fico entediada, dou uma olhada nele”.

Tudo isso joga contra o ambiente de sala de aula, que não consegue nem acompanhar a evolução do mundo cibernético nem se adaptar a um novo modelo cultural, que muda na medida em que as novas gerações vão preenchendo as letras do alfabeto, X, Y, Z e, agora, a chamada geração i, inspirada nos nomes de produtos da Apple. Essa se define como uma acentuação das características da geração anterior, Z, apresentando sintomas impressionantes, como a média de 19 segundos para troca da tela do celular.

Para lidar com essa realidade o professor precisa estar bem preparado.  “Infelizmente a universidade continua formando o mesmo professor que formava no século passado. Não há um preparo adequado para ajudar o professor a lidar com os desafios que enfrenta hoje em sala de aula. O método tradicional funcionava no passado, quando o aluno tinha um perfil de comportamento muito diferente”, relata Pachecão.

O professor acredita que quebrar a monotonia de temas mais didáticos com uma brincadeira ou contando um caso é um ótimo começo para conseguir atrair a atenção deste novo perfil de aluno. E foi essa iniciativa que o tornou conhecido em todo Brasil. Em suas aulas show, não só animação e brincadeiras fazem o ritmo das aulas, mas também músicas criadas por Pachecão, que ensinam de forma muito mais divertida. É o caso da Força Gravitacional de Newton, ensinada com a música Beleza Arrasadora: “Pouco importa minha beleza, ou meu físico avantajado, só sei que estou atraindo a garota do meu lado. Com gezão, emão, eminho sobre distância ao quadrado (F = G.M.m/d2)...”

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