As trilhas de longa distância

Publicado Segunda, 22 Janeiro 2018 16:15

Paulo André Mendes / Geógrafo e jornalista, colaborador da ArcaAmaserra - Associação para a Recuperação e Conservação Ambiental em Defesa da Serra da Calçada. / www.amaserra.org

O conceito de trilhas de longa distância vai ganhando corpo no Brasil, e as serras de Minas farão parte dessa aventura.  A história da nossa região – e me refiro à vasta região montanhosa ao Sul de Belo Horizonte, que segue até Ouro Preto, Ouro Branco e Congonhas, serra atrás de serra – está marcada por uma impressionante Corrida do Ouro.

A partir do final do século XVII, milhares e milhares de pessoas foram chegando, e abrindo um conjunto de vias para acesso e circulação. Foi assim que surgiram centenas de caminhos, alguns deles certamente seguindo antigas trilhas indígenas, outros abertos pelos exploradores. Muitos acompanhavam os nossos rios e serras.

Os nomes desses caminhos se perderam no tempo – com a exceção dos mais importantes. O Caminho da Bahia, ou dos Currais, que ligava a Capitania da Bahia aqui a Minas. O Caminho do Rio de Janeiro, depois chamado de Caminho Velho, que nos ligava ao litoral e à Capital Colonial, passando por Angra dos Reis.

E também o Caminho dos Diamantes, que levava ao centro-norte de Minas, se conectando aos caminhos de Goiás e do Mato Grosso. E ainda o Caminho Novo do Rio de Janeiro, passando pela região de Barbacena e Juiz de Fora – ele foi construído para reduzir o tempo de viagem até a Capital. Precisamos resgatar essa riqueza ambiental, cultural e histórica.

As trilhas de longa distância

Pedro da Cunha e Menezes é certamente o maior especialista do país em trilhas de longa distância. Relata Pedro que, em outubro de 1921, o engenheiro florestal norte-americano Benton MacKaye apresentou uma das ideias mais originais da história dos esportes de montanha: a trilha de longo curso. Foi quando ele publicou o seu projeto de sinalizar um caminho contínuo na Cordilheira dos Apalaches, nos Estados Unidos, com uma extensão total de 3.600 km.

Desenvolvida com a força do trabalho voluntário, em 1937 a trilha já estava completamente sinalizada. Hoje ela atrai cerca de dois milhões de caminhantes por ano, sendo que mais de dois mil percorrem-na de ponta a ponta.

A ideia deu tão certo que em 1968 o governo dos Estados Unidos adicionou uma nova categoria de unidade de conservação ao seu sistema: a “National Scenic Trail”, ou trilha cênica nacional. Hoje existem mais de 80 mil quilômetros de caminhos sinalizados e oficialmente protegidos nos Estados Unidos, divididos em 30 trilhas de longo curso.

Ainda segundo Pedro Menezes, a ideia ganhou cópias pelo mundo, e hoje já são mais de 200 trilhas de longo curso em operação. Elas estão em países ricos (como Austrália, França, Canadá, Espanha e Alemanha), mas também foram desenvolvidas em nações mais modestas. Líbano, Chile, Argentina, Panamá, África do Sul, Egito e Jordânia são alguns exemplos.

E no Brasil?

Agora esse conceito começa a ganhar corpo no país. A reunião de uma série de projetos locais – na verdade são dezenas deles – poderá dar origem, em breve, às nossas primeiras trilhas de longa distância.

Pedro Menezes enumera algumas trilhas já existentes (ou em fase de desenvolvimento ou concepção) que, reunidas, se transformarão em trilhas de longa distância.

No Sudeste, a Trilha Transcarioca (cruzando a cidade do Rio), a Trilha do Ouro (entre São José do Barreiro e Mambucaba), a Volta da Ilha Grande, o trecho da Estrada Real entre o Porto da Estrela e Petrópolis, o Caminho da Serra do Mar (ligando a Baixada Fluminense ao Parque Estadual dos Três Picos), a Trilha Transmantiqueira (começando no Parque Estadual dos Campos do Jordão e terminando no Parque Estadual da Pedra Selada), a travessia Rebouças x Mauá (no Parque Nacional do Itatiaia) e muitas outras.

No Centro-Oeste, a Travessia das Sete Quedas (na Chapada dos Veadeiros) e a Trilha Missão Cruls (ligando a Chapada dos Veadeiros a Goiás Velho, passando por Brasília e Pirenópolis).

No Sul, as estradas coloniais e imperiais da Graciosa e do Itupeva, a Rota dos Campos de Cima da Serra, a travessia Serra Gaúcha a Chuí (passando pelo Parque Nacional da Lagoa do Peixe) e os mais de 200 km de trilhas existentes nas bordas dos cânions – entre Aparados da Serra e Urubici.

No Nordeste, a ideia da “Rota do Descobrimento”, interligando as unidades de conservação do sul da Bahia.

Aqui em Minas

Aqui em Minas Gerais fala-se da Trilha Trans-Espinhaço, entre Ouro Preto e Diamantina, a qual poderia ser interligada à Travessia Diamantina - Mendanha, já organizada.

Isso sem contar trechos como a tradicional Travessia Lapinha - Tabuleiro e a recém-criada Travessia Alto Palácio - Serra dos Alves, esta última localizada no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó. Mais ao norte, no Parque Nacional das Sempre Vivas, planeja-se uma nova travessia, com 55 km de extensão.

As grandes serras ao redor de Belo Horizonte – Moeda, Caraça, Gandarela, Itacolomi, Geral, Piedade, Curral, Cipó, entre outras – farão parte dessa história.

Esse assunto continua.

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