A revegetação da Serra da Calçada

Publicado Segunda, 26 Março 2018 20:21

Paulo André Mendes / Geógrafo e jornalista, colaborador da ArcaAmaserra / www.amaserra.org

Nesta edição da coluna conversaremos com a professora Maria Rita Scotti Muzzi, do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Minas Gerais. A professora Maria Rita pesquisa e executa a recuperação, com espécies nativas, de áreas degradadas em diferentes biomas brasileiros (Mata Atlântica, Campos Rupestres e Cerrado, entre outros).

O seu trabalho abrange áreas impactadas por agentes e atividades variadas: fogo, inundação, espécies invasoras, erosão pela chuva, mineração e contaminação por metais pesados. E é ela a coordenadora do importante projeto de recuperação das áreas degradadas na Serra da Calçada – que vem dando ótimos resultados.

O projeto é uma parceria da ARCA-AMASERRA com a Universidade Federal de Minas Gerais, a mineradora Vale, o Projeto Trilhas, o grupo Mountain Bike BH e a Associação de Condomínios Horizontais. O apoio dos usuários das trilhas também é muito importante.

Com a palavra a professora Maria Rita.

Professora, o que representa para a Sra. o desenvolvimento de um trabalho de recuperação ambiental em uma das áreas verdes mais apreciadas da região metropolitana?

A recuperação de áreas degradadas no ambiente que chamamos de “campo rupestre” é um grande desafio. Nesse ambiente as funções e o papel de cada ser vivo ainda são objeto de estudo pela Ciência.

E o desafio é muitíssimo maior quando é necessária a recuperação de nascentes situadas dentro do campo rupestre. É o caso aqui da Serra da Calçada.

E sobre a situação ambiental da Serra da Calçada? Pela sua experiência, a Sra. considera o caso da Serra da Calçada um caso “grave”?

A degradação é grave, porque além da perda do campo rupestre, a degradação das nascentes se apresenta como um impacto de enormes proporções e de difícil solução. Precisamos, inclusive, da colaboração de profissionais de diferentes áreas do conhecimento.
Apesar disto, felizmente, a área é passível de recuperação.

Sobre o trabalho em si: qual a metodologia para transformarmos o que é hoje terra nua, superfície erodida, ou mesmo uma valeta de erosão, em algo novamente “vivo”, verde?

A nossa estratégia se baseia no funcionamento do campo rupestre. Como essa “eco região” funciona? Qual o papel dos elementos bióticos e abióticos para a sobrevivência do campo rupestre? Na perspectiva de recuperação dos elementos abióticos e bióticos e de suas inter-relações é que estabelecemos a metodologia empregada.

Além disto, incluímos a recuperação do serviço ecossistêmico do eco turismo: trilhas para pedestres e ciclistas também foram recuperadas. Um fator determinante para o sucesso desta empreitada é resultante do esforço dos diferentes partícipes, tais como os usuários das trilhas, e nomeadamente a ARCA-AMASERRA (representada por Simone Bottrel e Frederico Lanna), a mineradora Vale (representada por Mauro Lobo), o grupo Mountain Bike BH (representado por Christian Wagner) e o setor acadêmico (representado pelo Grupo de Estudos em Recuperação Ambiental, o GERA, da Universidade Federal de Minas Gerais).

Qual o maior desafio desse trabalho? O custo? O tempo que é necessário? Ou o fato de estarmos ainda aprendendo a recuperar nossos campos de altitude?

Como eu disse acima, a recuperação de áreas degradadas é uma ciência nova, onde aprendemos a cada dia com as nossas experiências. Portanto, o grande desafio deste trabalho de recuperação é estabelecermos o diagnóstico correto, sem o qual não se pode propor o modelo de recuperação.

Professora: o que já foi recuperado na Serra da Calçada, em termos de área impactada? E o que ainda há por se fazer?

Estamos na fase inicial de recuperação e já foram implantados todos os elementos para a recuperação. O sistema está se estabelecendo, e é uma fase que exige cuidados e manutenções. Podemos comparar com o primeiro ano de vida de uma criança: requer todos os cuidados e assistência.

À medida que o tempo passa o sistema torna-se mais estável e a área recuperada entra na sua maturidade – isso com sete anos de idade. A recuperação das trilhas e o incentivo ao ecoturismo responsável são um fator favorável para a preservação.


Como a Sra. vê a perspectiva de recuperação de outras áreas degradadas, aqui na região ao sul de Belo Horizonte?

A cada ano a Ciência dispõe de mais conhecimento e de mais recursos físicos, químicos e biológicos para resolver os impactos.

Uma pergunta final, para que o leitor mais curioso sobre o tema possa pesquisar um pouco na Internet. A Sra. poderia citar e comentar alguns casos interessantes de recuperação de áreas degradadas no mundo?

Um dos casos mais interessantes é o de um projeto na Índia, em que a cava de uma mina abandonada foi usada para a construção de bangalôs rústicos suspensos (como um prédio). Eles serviram como moradia para a comunidade carente local.

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