Um conflito anunciado

Publicado Quarta, 25 Julho 2018 18:58

Paulo André Mendes / Geógrafo e jornalista, colaborador da ArcaAmaserra / www.amaserra.org

Demorou, mas aconteceu.
O leitor já sabe: o Belvedere é hoje o paraíso dos corredores de rua de Belo Horizonte. São milhares de pessoas que aproveitam as ruas planas, largas e relativamente pouco movimentadas do bairro para treinar. Aos sábados pela manhã o movimento é ainda maior, em especial na área ao redor da Lagoa Seca. E em certos horários a movimentação certamente já é capaz de incomodar os moradores.
Então, há alguns dias, o que era previsível ocorreu: uma queixa contra essa movimentação foi registrada na Prefeitura de Belo Horizonte. Então ficou assim: de um lado os moradores, de outro os corredores. Sendo que muitos moradores também são corredores...

Mas quem terá razão?
Por um lado, é claro que os moradores têm razão – não é nada agradável conviver, de forma permanente, com uma situação de caos em frente à sua casa ou ao seu prédio.
Moradores de algumas regiões de Belo Horizonte sofrem (ou já sofreram) muito com isso. Por exemplo, certas áreas da Pampulha, em especial nos arredores dos estádios, e também partes de Lourdes. Também me recordo de reclamações em algumas ruas em especial, como a Major Lopes, no bairro São Pedro.
Certa vez escutei um relato de uma moradora do bairro Bandeirantes. Ela me disse nunca se esquecer de um domingo em que ocorreram, quase que ao mesmo tempo, três eventos enormes na região: um vestibular na UFMG, um jogo no Mineirão e uma corrida na Pampulha. Mas por outro lado também não podemos exatamente culpar os corredores, que têm suas razões. As vias do Belvedere são públicas, e são planas. O bairro é dos mais agradáveis da cidade. As árvores fornecem muita sombra.
Enfim, não é com o intuito de aborrecer os moradores que muita gente se desloca (muitas vezes de longe, gastando tempo e gasolina) para correr no Belvedere. A verdade é que essa história tem um pano de fundo.

Carência, carência e carência
Carência é o nome do motor e do pano de fundo desse conflito. A falta de espaços públicos de lazer em Belo Horizonte e na sua região metropolitana é inacreditável. Já escrevi aqui várias vezes sobre isso.
Já falei dos planos do órgão metropolitano de 1973, portanto há mais de 40 anos. Planos que previam a construção de muitos parques e áreas de lazer, em especial na Serra do Curral e na região ao sul de Belo Horizonte. Evidentemente quase nada saiu do papel. E hoje nem planos há, praticamente. Com raras exceções.
Para piorar a situação, por motivos que ninguém consegue me explicar, algumas dessas poucas áreas de lazer estão fechadas há meses. Entre elas o Parque das Mangabeiras. A desculpa é a epidemia de febre amarela...

Soluções?
Quando vejo esse conflito penso imediatamente no Parque da Lagoa Seca, um projeto que segue no papel. Certamente um espaço que comportaria muitos corredores. Mas penso também em paliativos: talvez exista uma área pública no Belvedere que possa ser cedida, se necessário mediante alguma contrapartida, para a acomodação dos corredores antes e depois dos treinos. Tirando um pouco o foco da área da Lagoa Seca.
Alguma solução há de existir.

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